Artistas

Graziela Pinto

Graziela Pinto

São Paulo, 1977

A Pregnância das formas como busca de si

Tecnologias de si...são as práticas que permitem aos indivíduos efetuarem, sozinhos ou com a ajuda de outros, um certo número de operações sobre seus corpos e suas almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos de ser, de transformarem-se a fim de atender um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria, de perfeição ao imortalidade. Michel Foucault (1)


De início , o que se vê são telas recheadas de formas circulares. Bolas de todas as cores, tamanhos, e tonalidades, dispostas em composições variadas. De fato, é impressionante a riqueza com que a artista dispõe dessas formas, fazendo-as flutuar sobre telas, engordar quadros, sair pelas paredes afora com seus adesivos, ocupar tridimensionalmente salas, e outros espaços, emprestando o formato de móbiles e globos.


Pensando bem, a obra de Graziela Pinto não é exatamente sobre bolas. O que elas fazem é remeter à forma primordial do nascimento, da união, da junção. Afinal, redonda (ou arredondada) é a célula, é a Terra e os planetas e os sóis, é o ovo, é a placenta. É a vida, enfim.


O redondo prolifera como vontade de expansão. No processo da pintura, Graziela alia sua vocação pela arte com um impulso sincero em direção ao crescimento espiritual. Eis que as formas arredondadas se assemelham a borbulhas, efervescentes celebrações da condição humana. Elas exalam fusão, comunhão. Não é à toa que alguns trabalhos emprestam o título a questões pontuais: estamos todos juntos, dá nome a uma colagem que mostra o mapa mundi povoado com bolas.


A artista conta que sempre teve necessidade de inventar e fazer coisas com as mãos: roupinhas, trancinhas. Menina observadora dos detalhes do mundo, ela costumava fixar o olhar nos detalhes das coisas, como as nervuras que se revelam nas folhas ou as conexões sutis que demarcam os encontros entre as pessoas.


Seu contato com a arte aconteceu logo com sete anos de idade, quando foi freqüentar aulas em ateliês de artistas. Mais tarde, viveu dois anos em Florença, onde aprendeu as técnicas ensinadas nas academias de Belas Artes: composição, perspectiva, luz e sombra.


Em seu ateliê, algumas pinturas com pessoas e motivos florais revelam esse aprendizado.


Em seu processo de depuração artística, Graziela partiu para uma simplificação formal. Foi nesse momento que proliferaram as bolas, ganhando jogos de tonalidades, de dimensões crescentes e decrescentes, de movimentos combinando dentros e foras. As telas passaram a respirar como bolhas de sabão que, na sequência, ganharam banhos de cor.


Um dos aspectos marcantes da escolha da bola como forma matriz é sua potência de fertilidade. Na teoria da Gestalt, a lei da pregnância explica que o sistema tende espontaneamente à estrutura mais equilibrada, mais homogênea, mais regular (2).


Assim, a pregnância (ou fertilidade) da imagem diz respeito ao caminho natural que ela segue em direção à boa forma, que é, idealmente, a mais simples de todas. E essa simplicidade é formada justamente por equilíbrio, homogeneidade, regularidade e simetria. 


Foi assim na construção de suas séries de bolas. Mas, a uma certa altura, eis que no trabalho de Graziela Pinto esse equilíbrio atingido pelas combinações de formas circulares começou a ser desafiado. Isso porque,  pouco a pouco, a artista passou a acrescentar a elas figuras como frutas, flores, pássaros, e outros tipos de formas-texturas a suas telas.


É como se as bolas fossem povoadas com as imagens resgatadas pelas formas sutis: passarinhos voam, flores nascem e povoam o mundo, quase sem peso. Essas figuras brotam e acontecem. Parecem ter saído de dentro dos ovos-bolas, nascendo e tomando corpo em camadas.


De fato, para Graziela, a vida e a arte se materializam nas camadas. Recentemente, ela se interessou pelos procedimentos usados no grafite e se pôs a pesquisar tipos de estêncils. Rendados, recortados, perfurados eles passaram a incorporar novas camadas de superfície, que junto às bolas, os pássaros e às flores, desenham caminhos de junção. É basicamente essa a procura da artista: formas prenhes e uma vida junto.


Notas:

1-trecho traduzido livremente do francês em Dits et Écrits, ( edição inicial, 1994) referente aos escritos sobre uma estética da existência.

2-Na Gestalt construiu-se uma teoria da percepção visual baseada na psicologia da forma. Ali a palavra pregnância, do alemão pragnaz, significa uma boa forma ou boa figura.


Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York é livre-docente em Teoria e crítica de arte pela ECA USP.  È Professora-associada do Museu de Arte Contemporânea da USP e autora de vários livros sobre arte e literatura.


Formação | Graduation

2012 - Acompanhamento de projetos - Sandra Cinto e Albano Afonso - Atelier Fidalga

2007 - Estudo de casos - Tadeu Chiarelli

2001 - Acompanhamento de projetos - Tereza Viana - MUBE

1998 - Acompanhamento de projetos - Ana Maria Tavares, MUBE - São Paulo, Brasil

1997 - Simpósio Michelangelo, MASP - São Paulo, Brasil

1997 - Curso de pintura, FAAP - São Paulo, Brasil

1994 ­­- Formação em Artes Plásticas, Lorenzo di Médici - Florença, Itália

1995 - Faculdade Belas Artes - Artes Plásticas - São Paulo, Brasil

1987 - Início dos Estudos - Ernesto Bacara

 

 

Exposições individuais I Solo exhibitions

 

2015 - Bios: Vida, Galeria Movimento Arte Contemporânea - Rio de Janeiro, Brasil

2011 - Estamos Todos Juntos 2, Convivendo com Arte, Centro De Exposições Torre Santander - São Paulo, Brasil

2008 - Oras Bolas - Galeria Arte em Dobro - Rio de Janeiro, Brasil

 

 

Exposições coletivas I Group exhibitions

 

2013 - Prêmio Belvedere, Galeria Belvedere - Paraty, Brasil


2010 - PhotoFidalga Quase Galeria, Espaço T - Porto, Portugal

2010 - Ateliê Fidalga no Paço das Artes, Paço das Artes - São Paulo, Brasil


2010 - Novas Aquisições 2010, Coleção Gilberto Chateaubriand - MAM - Rio de Janeiro, Brasil


2009 - Em Torno de Nos Limites da Arte, Funarte - São Paulo, Brasil


2009 - A Coleção II, Galeria Arte Em Dobro - Rio de Janeiro, Brasil


2009 - Entre Tempos, Curadoria do Espaço Carpe Diem Arte e Pesquisa - Lisboa, Portugal 

2009 - PhotoFidalga, Espaço Carpe Diem Arte e Pesquisa - Lisboa, Portugal

2009 - Ateliê Fidalga, 55 artistas - São Paulo, Brasil


2009 - Galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea Zoom - Lisboa, Portugal


2008 - Coletiva Fidalga - Presente - Ribeirão Preto, Brasil


2007 - 32o MARP - Salão de Arte de Ribeirão Preto - Ribeirão Preto, Brasil

2007 - Novas Direções - Galeria Oeste - São Paulo, Brasil


2006 - Novas Direções - Galeria Oeste curadoria de Margarida Sant’Anna - São Paulo, Brasil

2005 - Atelier Fidalga - curadoria Nancy Betts - Santo André, Brasil


2004 - Fermento, Atelier Fidalga - São Paulo, Brasil

2004 - 16º Salão de Artes Plásticas - Praia Grande, Brasil

2004 - Olhar Feminino, Galeria Jô Slaviero - São Paulo, Brasil

1999 - Contemporâneos, Galeria Jô Slaviero - São Paulo, Brasil

1997 - 6º Salão de Artes Plásticas de Catanduva - São Paulo, Brasil

1997 - 1º Salão de Artes Plásticas de Peruíbe - São Paulo, Brasil

1997 - 5º Prêmio Michelangelo de Pintura Contemporânea - São Paulo, Brasil

 

 

Coleções públicas e privadas I Public and private collections

 

-      MAM - Rio de Janeiro, Brasil - Coleção Gilberto Chateaubriand

-        Coleção Ana Luisa e Mariano Marcondes Ferraz