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Estranho Cotidiano

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O lugar da invenção 

Os trabalhos reunidos em Estranho Cotidiano têm por primazia a constituição de um resgate do exercício experimental da liberdade, no qual a atitude de continuamente subverter limites dados vale mais do que a invenção formal, e em que o processo criativo importa, por vezes, mais do que o resultado. Os diálogos travados entre os trabalhos constituem-se em uma quebra de hierarquias definidas entre o terreno da produção artística e o âmbito em que se desenrola a vida ordinária, ao mesmo em que se alinha a um campo estético próprio da geração de artistas brasileiros da primeira década desse século: a constituição de modos distintos e particulares em que neles são contrapostos e encadeados - recusando qualquer síntese - elementos próprios de uma cultura local e outros oriundos de uma cultura que, como tendência que nunca se efetiva plenamente, homogeneíza o que lhe é diferente. 

O termo invenção aqui resgatado serve como possibilidade de evidenciar um estado provisório das coisas que habita as obras de Estranho Cotidiano. Essa condição inconclusa - que marca a produção atual das artes visuais brasileiras e é fruto de uma aproximação com o outro que não se completa nunca e que é feita a partir de uma perspectiva única - esclarece e evoca, portanto, por meios irredutíveis a quaisquer outros, modos de sociabilidade vigentes no Brasil. Marcados pela maleabilidade de posições assumidas nas relações entre desiguais e, em simultâneo, pela sobreposição de interesses excludentes no âmbito do comum, são modos que não comportam a suspensão acordada e duradoura de conflitos entre desejos particulares que se anulam, requisito para que uma comunidade se afirme plenamente. É esse olhar que nos permite incluir outra possibilidade de estabelecer os trabalhos não como campos autônomos de produção, mas como diálogo efetivo baseado numa experiência de contradição, ou seja, em vez de ideias de pertencimento que ignoram ou que excluem o diferente, impõe-se no campo ampliado de diálogo entre esses trabalhos uma noção que não somente reconheça e incorpore a diferença, mas que dela dependa para criar, desse contato que confunde conflito e troca, modos de representação próprios de um mundo sem fronteiras certas. 

Na rede de construção simbólica que é traçada entre as obras expostas, há uma inventiva materialidade assim como, em alguns casos, uma investigação sobre o status da paisagem na arte contemporânea. Nas obras de Pedro Varela, Carolina Ponte e Maria Laet, a ansiedade e a incerteza geradas pela dissolução de estruturas fixas são compensadas pela descoberta, em seus interstícios, por assim dizer, de uma nova elasticidade e fluidez. Na tripartite metáfora desses trabalhos - tempo/objeto/materialidade -, a linha sem forma e sem fim busca seu precário equilíbrio. Essas construções delirantes de paisagens despertam imagens que nos alertam sobre a própria precariedade do mundo. Nino Cais e Rodrigo Torres empregam o estranhamento em diálogo com o inesperado e o paradoxal que, por sua vez, entram em confronto com o habitual. O glamour do objeto não é um prazer em si mesmo, mas antes o prazer da fantasia. No Lexotan de Louise DD, essa espécie de ilusão sedutora absorve simultaneamente o objeto de arte, o artista e o público. O artista representa-se como um objeto para o consumo. Este não é um gesto que precede sardonicamente as forças do mercado, mas serve para utilizar e acentuar o papel do consumo e seu valor estético no campo visual. A arte explora a si mesma como um signo social - de riqueza e espiritualidade - a fim de amarrar as questões aparentemente heterogêneas do consumo e da estética. As linhas em Malu Saddi não são delimitadoras de um espaço ou de fronteiras como normalmente se espera, mas geração de dúvidas transmitindo um forte sentimento de colisão entre ternura e desconforto. No exercício que se confunde entre a ficção e o lúdico, as obras de Maria Lynch, Toz e Gisela Milman transformam-se em suspeita, transferem-se para o terreno da liberdade, numa fusão entre o real e o imaginário. Em seus diferentes campos de ação, esses artistas constrõem um tipo de discurso que escapa às armadilhas da pura reflexão ou pura ficção, combinando estratégias variadas de ação que permitem passagens e conexões entre os dois campos. Procuram definir um território que se apresenta sem conclusão e sem imagem, sem verdade nem teatro, sem prova, sem afirmação, independente de todo o centro e que constitui seu próprio espaço como o fora em direção ao qual o trabalho opera. Este discurso abre-se como um comentário, repetição daquilo que murmura incessantemente, palavra que permanece no exterior daquilo que diz, meditação sobre aquilo que da linguagem existe, escuta do vazio que circula entre suas palavras, discurso sobre o não-discurso de toda linguagem. Esta situação é explorada na obra de Botner e Pedro, onde a investigação sobre a condição (mágica) do objeto de arte é operada. Os artistas chegam a um impasse: exploram um objeto que tem a máxima presença e a máxima ausência. Ele mesmo nega a sua instanteneidade, presença e desaparição. O espectador está constantemente revendo-o. O tipo de objeto que não permite ser observado durante muito tempo, já que sempre está no exato momento em que foi visto pela primeira vez. O sujeito da percepção se apossa da visão como dado da consciência no vídeo de Ayres. Numa lenta tortura voyeurística de olhares, erotizar a visão é convertê-la em olhar. Na relação escópica, afirma Lacan, o objeto de que depende a fantasia à qual o sujeito está apenas numa vacilação essencial, é o olhar. Refletir sobre o estatuto da imagem e seu diálogo com o descompromisso próprio do tempo estabele um vínculo entre os trabalhos de Ni da Costa, Patricia Gouvêa e Marcelo Amorim. A irrenovabilidade do tempo nessas três obras propõe a vivência exclusiva do instante, o presente agora por um sujeito fenomenológico insubstituível: o Outro. Gouvêa ainda nos conclama: conhecer o mundo é também mergulhar na aversão sensorial. Nos trabalhos de Murilo Krammer e Reginaldo Pereira, as pesquisas sobre a natureza do objeto de arte e a criação de um campo ilusório de impermanência fazem com que essas obras dialoguem com um território de probabilidades ou uma ambiguidade de situação capaz de estimular o (desgastado) sentido da experimentação. Nos objetos camuflados de Glaucia Mayer e na obra de Silvia Jabali compreendemos que uma das tarefas da arte é converter o limite sensorial em potência. Embora o simbolismo das obras dessas duas artistas não encontre interpretação unânime, é patente a existência de uma crise e a incompletude da razão. Numa espécie de fenomenologia do descondicionamento, as obras de Estranho Cotidiano parecem nos alertar que o que se molda é o olhar mesmo, não o olho. 
Felipe Scovino