Exposições

Onde Não Estou

Onde Não Estou

Thais Beltrame

Individual Thais Beltrame

Onde nao estou

"O universo da literatura, ou da contacao de historias, e cheio de lugares. Criar uma historia e criar um lugar para que ela aconteca, construir atraves da narrativa um terreno, uma cartografia que, mesmo fantastica e impossivel de existir em nosso mundo regido por regras da fisica, de conta de situar e inserir o leitor nesse universo, torna-lo parte dessa historia. A Fabula - que significa em latim ?o que e dito? - e um genero literario que tem origem no oriente, de uma tradicao de historia oral, e econstruida por um mundo onde animais, humanos e seres inanimados, como arvores e casas, convivem e interagem sob as mesmas caracteisticas, em pe de igualdade. Todos tem suas personalidades, principios, qualidades e defeitos. Atraves dessas fabulas, a sabedoria de carater moral era, e e passada, para as novas geracoes. Essas historias miticas exemplificam o certo e o errado no comportamento moral humano. 

Thais Beltrame circunda esse universo literario. Certamente a artista traz de seu trabalho como ilustradora referencias para seu trabalho artistico, ou talvez, subverta esse primeiro universo. Sua producao cita claramente esse mundo das fabulas. Seus desenhos, gravuras e instalacoes trazem cenas de florestas, pequenas cidades ou ambientes domesticos, onde animais e pessoas parecem desempenhar um papel no desenrolar de uma historia. Mas nos trabalhos da artista nao ha historia precisa, os personagens parecem aguardar, em uma reflexao do que passou, e em um momento de espera contemplativa por uma historia que esta por vir. 

Os animais que normalmente aparecem nas fabulas como simbolos de qualidades humanas como forca, sabedoria e astucia, aparecem tambem nos trabalhos de Thais, e carregam em si essa simbologia. Em um dos desenhos da artista, vemos em primeiro plano um coelho, que nos observa do alto de sua sabedoria, parado em uma elegante posicao ao lado de uma janela, preso em um ambiente domestico. Pela janela vemos uma figura humana, que esta de costas, e olha para um horizonte vago do alto de um balanco, em um estado meditativo. Esse personagem, assim como as demais figuras humanas destes trabalhos, tem sempre feicoes infantis, simbolo de pureza e inocencia, outra referencia ao mundo das fabulas. Uma pagina em branco esperando por sua historia. 

Como tecnica de construcao, a obra de Thais tem como ponto de partida o desenho (talvez uma escolha natural, pois responde diretamente ao universo do livro, do papel, e da grafia). e a partir do desenho, algumas vezes acompanhado de aquarela, que o trabalho se desdobra em gravuras, colagens, instalacoes e objetos compostos por camadas de desenhos recortados.

Seus trabalhos lembram tambem as iluminuras medievais, e certamente respondem a elas, sobretudo no formato diminuto que a maior parte da producao da artista assume, mas tambem quando a artista insere manchas e chapados de preto ou tinta dourada em seus desenhos, ou ainda no trabalho onde e inserido pequenos papeis coloridos semi-transparentes que formam o vitral de uma janela. Na composição de Thais, assim como nas iluminuras, ha uma economia de formas e personagens, apesar de cada elemento receber detalhes excessivos. 

A artista detalha seus desenhos a exaustao, o que faz com que mesmo em desenhos de grande formato, ou em suas instalacoes com desenhos realizados diretamente em paredes, essa referencia se mantenha presente na dualidade entre a escala do trabalho, e a escala do traco. 

Esse e o universo apresentado na exposicao onde não estou, cenas criadas atraves de um delicado desenho de estremo labor apresentam um mundo de intensa espera meditativa. Ao contrario das fabulas, das ilustracoes, ou das iluminuras, nos desenhos e gravuras de Thais, os personagens nao se comunicam, as acoes estao sempre contidas em uma pausa silenciosa. Seus personagens olham para o horizonte, escalam arvores, ou almejam o ceu atraves de frestas, sejam elas de portas, janelas ou alcapoes, em busca do proximo passo, do decorrer dessa historia. 

E assim que Thais constroi o seu mundo, configurando esses elementos em recortes e camadas, que articuladas, constroem um cenario, uma paisagem - ainda que domestica - para uma situacao de espera e reflexao. Um mundo aprisionado no papel, um mundo de papel, um mundo que parece querer sair do papel, para invadir o mundo. 
Douglas de Freitas | Curador