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Papeis Avulsos

Papeis Avulsos

Paulo Vieira

Individual Paulo Vieira

PAPEIS AVULSOS

"As vezes pelas tardes certo rosto
Contempla-nos do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso proprio rosto."
Jorge Luis Borges, Arte Poetica, em O Fazedor (1960)


Quem desenha conta historias. Inventa, cria rostos, dialoga com a magia. Procura novas narrativas escapando do obvio em busca da novidade. 
Desenhar e pratica constante para Paulo Vieira. Com grafite, lapis de cor, aquarela e papel vai contando historias, modificando realidades a procura do que existe no fundo de cada imagem captada por seu olhar atento. Sao muitos e diarios os desenhos criados. Sao todos papeis avulsos que vao se somando, revelando historias. 
A exposicao Papeis Avulsos apresenta obras de Paulo Vieira onde desenho e pintura aparecem numa mistura fascinante. Da pratica diaria surge a exposicao. Do exercicio da observacao e da disciplina, o artista. Seus desenhos "falam" de pessoas que entram nas narrativas como personagens em historias. Tem existencia propria e seguem desgarrados, isolados. O homem de gravata, em Autorretrato, assim como o homem com a casa nas costas, em O Inquilino, estao sos, perdidos em seus pensamentos e ocupando o primeiro plano. Avulsos, interagem com seus medos, seus fantasmas, suas fantasias. Os tons de cinza, as tramas e padronagens ao fundo imprimem aos desenhos uma densidade surpreendente. Em outra obra, a foto de uma familia e usada por Paulo Vieira para expressar duas visoes diferentes sobre um mesmo tema. O artista cria, atraves da cor e do desenho, um personagem destacado do conjunto familiar antes uniforme. Com intervencoes criativas, torna a narrativa menos linear, mais instigante, menos obvia.
A Menina com fio de ouro surpreende pela beleza dos tracos, pela seguranca e nivel de consciencia do autor ao realizar essa obra. Quantas possibilidades se apresentam diante de uma imagem tao instigante. O rigor da forma e a precisao nos detalhes sobressaem apos o encantamento inicial. Mas quem observa certamente se perdera pelos diversos caminhos que o desenho pode levar.
Na delicadeza do uso da cor e no cuidado com os desenhos, Paulo Vieira nos fala sutilmente de solidao, de vida interior, do reinventar. Para ele o equilibrio esta muitas vezes no desequilibrio, a intuicao tem que ser submetida a experiencia e as imagens podem criar armadilhas. O desenho proporciona infinitas possibilidades. Permite que o olhar critico se aproxime procurando sentidos cada vez mais profundos. Mas tambem nos mostra que a beleza reside absoluta no traco seguro, na cor adequada, na imagem captada pelo olhar experiente. Ao espectador fica a tarefa de contar outra historia apos o momento de fruicao. Uma historia que permanecera no seu interior, poderosa, pois e unicamente sua. Perturbadora como um conto de fadas.

Isabel Sanson PortellaDoutora em Historia e Critica de arte